Confesso que tenho visto poucos telejornais ultimamente, mas ontem ou anteontem ouvi que o governo iraquiano teria até ao dia 24 de janeiro para fazer cumprir a sentença que o tribunal iraquiano decretou a Saddam Hussein. Segundo os nossos iluminados analistas políticos (como eu adoro o Nuno Rogeiro!!), tudo apontava para que a execução só tivesse lugar daqui a algumas semanas, nunca ainda este ano. Qual o meu espanto quando, hoje, ao ver o noticiário da 1 da tarde a notícia de abertura é a morte do antigo ditador. Com direito às últimas imagens em vida de Saddam, assiti um pouco em estado de choque àquelas imagens que me encheram de consternação. Pensei sozinha "parece que afinal já havia televisão na Idade Média, altura em que a vida humana era decidida por gente que se achava superior na sua moralidade, na sua sapiência, nos seus genes, gente que se acha interlocutor de Deus na Terra". Mas não e discursos como o que o Procurador Geral da República fez há anos atrás num programa comemorativo dos 129 anos sobre a data da abolição da pena de morte são desprovidos de qualquer fundamentação, porque acredito que fomos todos nós que metemos a corda no pescoço de Saddam. Porque felizmente entre nós a pena de morte para os crimes políticos está abolida nos corações de todos; e se, porventura, aparecesse hoje entre nós, um Nero, ou um Calígula, não teria força para a impor; e ainda bem que damos ao mundo um exemplo de tolerância que muito nos honra. Sr. Procurador, que belo exemplo vi hoje na minha televisão!
Não quero com isto dizer que Saddam não devesse ser julgado perante um tribunal credível e condenado pelos crimes que cometeu ao longo de tantos anos, mas sou e sempre serei contra a pena de morte em qualquer circunstância. E por favor não me venham com a célebre pergunta "e se fosse um filho teu?". A coerência acima de tudo e quando forem os nosso sentimentos a mandar numa sala de tribunal então estaremos mesmo mal!!