No meu diário
23h 31m 25 Outubro 2006
Que enorme noite!
Fui à Biblioteca de Oeiras. Acabei de chegar. Não podia deixar as notas adormecerem.
Convidado: António Lobo Antunes
Nunca li um livro dele. Só algumas crónicas. Mas já tinha lido algumas entrevistas e estava curiosa. Gostava do que lia acerca dele e... todas as expectativas foram completamente superadas. Este homem é genial. As histórias saem da sua boca como abelhas da colmeia. Histórias de pessoas, de famílias, de gente. Histórias de humor genuíno, puro, sarcástico, negro, enebriante. "Descobri o que era a poesia quando vi um grande poeta que morava perto de mim, a lamber um gelado (e encena o gesto!) em frente a uma montra de lingerie cheia de soutiens de renda. Para mim isso passou a ser a Poesia"
Foi também o lançamento público do seu novo livro e, segundo o autor, o mais auto-biográfico até agora. Nele se fala de emoções, de sentimentos e não de factos como no início da carreira. Diz que os factos não têm o poder biográfico dos sentimentos. Se ele diz, eu acredito.
Nunca lê os livros que escreve, não tem o distanciamento necessário, mas "hoje dei por mim a ler duas páginas do meu livro e fiquei surpreendido... é muito bom!" ( riso geral na sala).
"Um bom livro é aquele que nos chama na estante. Quando todos os outros dormem, aquele está acordado. Chegamos à estante e estão a Rita Ferro e o Sousa Tavares (eu até gosto dele) a dormir e há um que me chama (...) Os editores às vezes lançam livros cá pra' fora muito bons- enganam-se!!!!" (riso).
Diz Lobo Antunes que este novo romance responde à pergunta- como é que a noite se transforma em manhã?- Vou ter de descobrir.
Pelo meio de tantas histórias e algumas ideias geniais, deixo só mais três:
a) " Nem sempre é a mulher mais atraente da sala que se põe em bicos de pés"
b) " Um bom professor não é aquele que dá, é aquele que não tira"
c) A última história da noite "Dez anos depois do meu avô morrer, a minha avó disse-me:
- Não quero ser enterrada com o teu avô!
E eu fiquei admiradíssimo. Habituado a ver a fotografia dos meus avós, pendurada na parede da sala, ele sentado e ela em pé com um ar feliz. Perguntei porquê. Respondeu-me:
- Aquela fotografia foi tirada no dia a seguir à nossa noite de núpcias. Eu em pé porque não me conseguia sentar, ele sentado porque não conseguia por-se em pé. Agora imagina, com ele lá em baixo há 10 anos à minha espera..." (risos e palmas)
E com esta história terminou uma noite inesquecível que nem a louca das costas de cristal conseguiu manchar.
Obrigada António Lobo Antunes


